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[MovieCLIP] De 'Perfeitos Estranhos' a 'Parasita'… 3 filmes coreanos sobre 'mentiras'

A mentira tem mil faces

Dia da Mentira, mentira, Parasita, Candidata Honesta, Perfeitos Estranhos
Foto: filme 'Perfeitos Estranhos', 'Parasita', 'O Candidato Honesto'

Ao lembrar do Dia da Mentira, em 1º de abril, é comum que a palavra “mentira” venha à mente. Dependendo do tempo, do lugar e da situação, a mentira assume rostos completamente diferentes. A mentira por benevolência pode vir embrulhada em consideração, enquanto a mentira carregada de má-fé corrói a confiança. Por isso, no cinema, a mentira não é apenas um dispositivo de reviravolta: ela é o motor que move as relações.

No cinema coreano, as mentiras também aparecem com frequência. Do que se esconde no celular às mentiras que viraram a linguagem cotidiana do poder, observamos as diversas formas de mentira que operam nas obras.

Perfeitos Estranhos

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Foto: filme 'Perfeitos Estranhos'

Amigos de longa data se reúnem, cada um com seu cônjuge, para um jantar de inauguração de casa. Para animar o clima, alguém propõe: “Vamos jogar um jogo hoje?”. As regras, um tanto “atrevidas”, dizem que todos devem deixar o celular sobre a mesa e, se tocar, atender no viva-voz; já mensagens de texto e alertas de mensageiros devem ser mostrados a todos. No início, todos entram na brincadeira com leveza, mas, à medida que o jogo avança, fica claro que os celulares são verdadeiros “depósitos de mentiras”. Todo mundo tem alguém com quem prefere esconder uma conversa, um histórico que apagou e notificações difíceis de explicar. O afeto de casais aparentemente comuns e a confiança entre amigos racham de uma vez por uma ligação ou um único alerta.

O charme do filme não está na explosão simplista do “acabou quando o segredo vem à tona”, mas naquele instante imediatamente anterior ao flagrante. Para proteger suas mentiras, cada personagem empilha mentiras ainda maiores a cada momento, e essas mentiras provocam as mentiras dos outros. No fim, o filme mostra que o mais assustador não é a verdade em si, mas “perder para sempre o momento certo de dizê-la”. Não é a mentira de 1º de abril, dita em tom de brincadeira, que destrói os laços; são os pequenos esconderijos acumulados no cotidiano que, quando rompem de uma vez, redefinem as relações. E assim, fica sobre a mesa a pergunta: “Afinal, o quanto nos conhecemos?”

As falas que circulam sobre a mesa soam como a linguagem da amizade, mas, fora de quadro, as pontas dos dedos de cada um tremem na direção do celular. Alguém tenta silenciar o modo vibratório e acaba levantando suspeitas; outro apela para uma piada exagerada só para desviar o olhar do parceiro. Quanto mais essas pequenas atuações se acumulam, mais o público percebe que “mentir é, no fim das contas, a soma de comportamentos para não ser pego”. A obra não transforma a mentira em propriedade exclusiva dos vilões. Desculpas para proteger o amor, silêncios para preservar as aparências e pretextos para adiar a culpa sacodem uns aos outros. Quando o jogo termina, o que resta não é o alívio da exposição, e sim a constatação amarga de que, quanto mais íntimos somos, maiores são os “cômodos onde nada é dito” entre nós. Parece um jogo para medir “quem é mais sincero”, mas, na prática, é uma noite que testa “quem esconde melhor”. Por isso, em vez de culpar os personagens, o público enxerga as razões por trás de cada mentira — ansiedade, solidão, desejo. É isso que transforma a obra não em um mero espetáculo de revelações, mas em um thriller de relações.

Parasita

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Foto: filme 'Parasita'

A família de Kim Ki-taek (interpretado por Song Kang-ho), todos desempregados, leva a vida como pode em um semiporão, mas a sintonia entre eles é incomum. Um dia, o filho Ki-woo (interpretado por Choi Woo-shik) consegue indicação para dar aulas particulares na casa de uma família rica e põe os pés naquele lar abastado; a família, então, expande a oportunidade como um verdadeiro “trabalho em equipe”. O problema é que o método não é a competição honesta de currículo, e sim uma mentira meticulosamente arquitetada. Ki-woo enfeita sua formação e experiência, e a filha Ki-jung (interpretada por Park So-dam) se apresenta com uma identidade totalmente diferente. A família cria histórias para afastar os funcionários antigos do Sr. Park (interpretado por Lee Sun-kyun) e, pouco a pouco, vai ascendendo à superfície.

No filme, a mentira parece ser ao mesmo tempo estratégia de sobrevivência e escada para mobilidade de classe. Mas, quanto mais alta a escada, mais perigosa ela se torna. As pequenas simulações e disfarces se acumulam, as mentiras de uns tornam os outros seus reféns, e basta um escorregão para que tudo desmorone de uma vez. Em especial, quando a hipocrisia da elite — que quer parecer “gente boa” — se sobrepõe ao disfarce da classe baixa — que tenta “esconder a pobreza” — dentro do mesmo espaço, a mentira deixa de ser escolha individual e vira regra social. Não é a mentirinha fofa de 1º de abril, e sim a mentira pela própria vida, levada até as últimas consequências, que o filme esmiúça.

A casa do Sr. Park é ampla, iluminada e regida por regras impecáveis. Quem trabalha ali é tratado como alguém “necessário, mas que não deve chamar atenção”. As mentiras da família Kim exploram exatamente essa fresta. De cartas de recomendação a entrevistas e falas de apresentação, tudo funciona como se fosse um roteiro afinado, e a família escolhe com precisão o que o outro lado quer ouvir. Quanto mais a mentira dá certo, a vida fica um pouco mais fácil — e, ao mesmo tempo, mais silenciosa e cuidadosa por medo de ser desmascarada. O filme alimenta essa ansiedade continuamente e mostra que o “lugar conquistado pela mentira” cobra, no fim, um preço maior em forma de insegurança. À medida que a família ganha papéis, a casa do Sr. Park funciona de maneira ainda mais perfeita, mas os Kim passam a depender mais uns dos outros. Isso porque, se a mentira cair, não é um indivíduo que ruirá — é a família inteira. O paradoxo do filme é que essa coesão não se sustenta pelo calor humano, e sim pela tensão.

O Candidato Honesto

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Foto: filme 'O Candidato Honesto'

Joo Sang-sook (interpretada por Ra Mi-ran), deputada em seu terceiro mandato para quem mentir é tão fácil quanto respirar, constrói uma imagem perfeita às vésperas da eleição. Ela fala como uma “política direta ao ponto” que luta pelo povo, mas, na prática, tudo é cálculo, atuação e embalagem. Até que, de repente, acontece algo como um raio em céu azul. Sem saber o motivo, Sang-sook, da noite para o dia, fica incapaz de dizer qualquer mentira. Basta abrir a boca para que seus verdadeiros pensamentos escapem, e suas fraquezas e interesses que queria esconder sejam expostos em tempo real. Para alguém cuja arma sempre foi a mentira, a “imposição da verdade” é um desastre.

O filme transforma esse ponto de partida em comédia, mas sem perder de vista como a mentira é usada como técnica de poder. A princípio, Sang-sook tenta fugir da verdade para sobreviver, mas, aos poucos, entende: a mentira não a protegia; era um instrumento que distorcia relações e empurrava responsabilidades para depois. Em meio a eleições, imprensa e disputas internas, fica evidente como um “sistema onde a mentira é o padrão” corrompe as pessoas com facilidade. No Dia da Mentira, a mentira vira risada; na vida real, ela muda a vida de alguém. A obra escancara essa distância com uma sátira saborosa.

A cada vez que Sang-sook dispara uma verdade, as expressões de quem está ao redor congelam — e essa reação logo se transforma na pergunta “como a política chegou a esse ponto?”. Nem mesmo sua equipe mais próxima celebra a verdade, e a imprensa a consome como se fosse um produto. À medida que vêm à tona o passado escondido de Sang-sook e as engrenagens de sua construção de imagem, percebemos que a mentira deixou de ser traço de personalidade e virou “técnica para vencer eleições”. Em vez de encerrar a transformação da protagonista com uma lição edificante, o filme arranca risadas ao mostrar também o quanto dizer a verdade é incômodo e custoso. A premissa é absurda, mas, quanto mais Sang-sook fala a verdade, mais o entorno responde com posturas ainda mais falsas. Em outras palavras, a honestidade não é apenas uma virtude individual; é uma escolha que só se sustenta quando a sociedade está pronta para aceitá-la.